História da Comunidade
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| Comunidade já reconhecida-Lei n.7.668 |
Pedras de Maria da Cruz é um município mineiro da região do Vale do Rio São Francisco que conta atualmente com cerca de 10.900 habitantes. A ocupação da região iniciou no século XVIII. Maria da Cruz, que nomeia a cidade, era pertencente à família da Torre, e casada com Salvador Cardoso de Oliveira, sobrinho de Matias Cardoso de Almeida, bandeirante, fundador das Comunidades de Morrinhos, Amparo e São Romão, além de outras menores nas barrancas do Rio São Francisco, como Porto de Salgados (hoje município de Januária). Maria da Cruz e sua família eram fazendeiros poderosos, detentores de escravos. São associados a um movimento de revolta contra a devassa (cobranças violentas de impostos não quitados) da Coroa Portuguesa, deflagrado no Vale do São Francisco, na segunda metade de 1700. Esse movimento deflagrou-se em vários combates em toda a região do médio São Francisco, e seus combatentes são referidos na memória coletiva dos moradores da região como os revoltosos.
Alguns dos moradores mais antigos de Palmerinha referem-se a essa revolta como uma origem da migração de seus antepassados para o lugar onde formou-se a comunidade Palmerinha. Esses ancestrais teriam vindos fugidos dos revoltosos, tanto de uma região da Bahia, a que chamam Parateca, quanto da região que denominam de Gorutuba. Notadamente, Parateca e Gorutuba são nomes vinculados a comunidades remanescentes de quilombos do Vale do São Francisco -no estado da Bahia, nos municípios de Malhada e Palmas de Monte Alto, estão localizadas as comunidades quilombolas de Parateca e Pau D'Arco, na margem direita do rio São Francisco; e na atual Januária residem remanescentes de escravos fugitivos vindos das plantações de cana da Bahia e dos garimpos de Diamantina e Grão Mogol, denominados gorutubanos . Suspeitamos fortemente que a relação de Palmerinha com essas comunidades remanescentes de quilombos não é fortuita. Porém, a comunidade não dispõe de recursos (financeiros e humanos) para o desenvolvimento de uma pesquisa mais rigorosa que dê conta da apuração dessas histórias-memórias coletivas dos moradores de Palmerinha quanto a origem de seus ancestrais - dados tão relevantes para uma reconstituição mais completa da história da comunidade.
Palmerinha é uma comunidade rural atualmente constituída por cerca de 60 famílias – conta-se com aproximadamente 250 moradores. São agricultores familiares que compartilham uma trajetória social - de muita precariedade em termos do reconhecimento dos direitos cidadãos de seus moradores; uma dimensão cultural - seus modos de viver e fazer, sua visão de mundo, suas histórias sobre os antigos, sobre os encantados do rio São Francisco, e sobre antigos escravos nagôs feiticeiros que habitaram ali ; e uma história (de ocupação da terra, de discriminações e violências em função da manutenção de sua terra, de migrações forçosas para outras regiões promissoras de uma vida melhor).
São em sua grande maioria negros, parentes, descendentes dos primeiros ocupantes da comunidade, que supõem-se viverem há mais de 150 anos nessa terra que lhes provê o sustento e as condições básicas de sociabilidade. São em sua maioria católicos e exercem algumas formas de expressão particulares, tais como a dança de São Gonçalo, o batuque, as Pastorinhas e o Reisado, além de ofícios e ladainhas católicos ainda hoje cantadas em latim.
A consciência e o auto-reconhecimento quilombola do grupo foi intensificado com as ações de alguns moradores que se constituem como lideranças, principalmente depois de seu encontro com pesquisadores de um projeto cultural atuante no Vale do São Francisco. Esse projeto que, além de realização de atividades lúdicas e de entretenimento, conta com uma equipe de pesquisa. Tal equipe, esteve em Pedras de Maria da Cruz em 2006 e soube então que havia um quilombo por ali, conforme disseram alguns dos moradores abordados na sede da cidade. Diziam de “um lugar onde só moravam ‘pretos’, todos parentes, que moravam em casa de barro com cobertura de palha”. A equipe de pesquisa buscou então ir de encontro ao assim indicado quilombo Palmerinha. Fizeram contato com alguns moradores, dentre eles um morador que atua como liderança para desenvolvimento de alguns projetos de geração de renda na comunidade. Na conversa, esse morador afirmava que apesar de desconhecer propriamente o que se significava o termo “quilombo”, Palmerinha tinha sim a característica peculiar de ser uma comunidade totalmente formada por negros, em sua grande maioria parentes, e de ocupação bastante antiga – “de mais de 100, 150 anos” – e que por isso meso se destacava e sofria muito pré-conceito no município de Pedras de Maria da Cruz. Por serem todos negros, de baixa escolaridade, com práticas antigas tais como as benzeções e as curas por administração de raízes e outros remédios naturais - práticas acusadas como superstição –, e com uma vida muito parca e limitada em relação aos hábitos de consumo das pessoas da cidade.
A partir desse encontro e troca de informações com a equipe de pesquisa, o morador sentiu-se motivado para investir na busca pelo conhecimento do que seriam comunidades quilombolas no Brasil e quais as possibilidades de mudança de vida para esses grupos que dizia-se, estavam sendo melhor assistidos por políticas do governo federal. Esse morador-liderança reuniu-se então com outros parentes interessados em investigar melhor a história da sua comunidade (e que inclusive já desenvolviam atividades voltadas para a cultura tradicional do grupo, como o batuque, o reisado e as Pastorinhas) para mobilizar seu grupo em torno de um pesquisa sobre essa questão. Durante sua pesquisa, progressivamente, os moradores envolvidos passaram a reconhecer na história das comunidades remanescentes de quilombos no Brasil, a história de sua própria comunidade: memória dos parentes mais antigos (idosos, ainda lúcidos, entre 60 e 97 anos de idade) sobre outras comunidades remanescentes de quilombos que, ao que suas lembranças indicam, foram lugar de origem dos seus ancestrais, fundadores de Palmerinha; resistência contra a violência de grandes fazendeiros interessados em suas terras; sofrimento pela discriminação das pessoas da cidade, em função de sua aparência e de seu modo de vida rural; precariedade no acesso aos direitos a que qualquer cidadão que comparece às eleições e escolhe seus representantes deveria poder desfrutar (saúde, educação, respeito e dignidade).
A medida em que foram tomando consciência de sua situação histórica e cultural, esses moradores de Palmerinha mobilizaram seus parentes e investiram em reuniões para informação, discussão e afirmação de um consenso sobre a sua identidade histórica e cultural: famílias negras, em sua maioria aparentadas em diferentes graus, descendentes dos primeiros ocupantes do lugar antigamente nomeado Fazenda Palmerinha ou Cascalho (conforme documento de espólio de senhora Juliana Hipólita de Souza): a velha Juliana Hipólita de Souza, seu esposo Ursulino, e um senhor de nome Julião, que não se sabe se era ou não, seu irmão.
Aos poucos, os moradores mais antigos, estimulados pelos mais jovens, têm se recordado de um e outro fato que vai se encaixando na reconstituição de uma grande narrativa que tenta dar conta da história da origem desse grupo que se auto-reconhece como comunidade quilombola – principalmente em função da origem de seus ancestrais fundadores da comunidade (Gorutuba e Parateca), seu parentesco extenso, sua história de persistência na área rural (muitos moradores migraram e anos depois retornaram pelo amor ao lugar), sua negritude (pela qual sofrem ainda hoje muito preconceito), suas práticas culturais que se destacam das de outras regiões do município, e suas precárias condições de vida na terra (às quais atribuem um grande descaso das autoridades em função de sua condição étnica que não é valorizada pelos de fora).
Em função dessa tomada de consciência, em consenso, e dessa auto-identificação quilombola é que a comunidade vem agora solicitar à Fundação Cultural Palmares o amparo para que se desenvolva uma pesquisa mais rigorosa da genealogia e da história de formação de sua comunidade, Palmerinha, para assim conquistar a certificação oficial como comunidade remanescente de quilombo. Com essa credibilidade conquistada, acreditamos, poder prosseguir mais fortalecidos com a luta pela valorização social e cultural de Palmerinha, creditada, agora pelo reconhecimento do governo federal do caráter étnico dessa comunidade, e de sua importância fundamental para a demonstração e valorização da diversidade cultural brasileira.

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